quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Possíveis limitações sobre a análise quantitativa de risco e a técnica de Monte Carlo

Atualmente muito se fala em análise quantitativa de risco e a Técnica de Monte Carlo, mas fica a sensação de que para muitos um se tornou sinônimo do outro e vice-versa, e de que a análise quantitativa é independente dentro do gerenciamento de riscos e não parte de um todo. Desta forma, surge a seguinte questão para análise: será que alguns pontos importantes podem não estar sendo considerados ou compreendidos em relação à disciplina de gerenciamento de riscos?

Tentaria dividir uma breve análise em três pontos principais:

(1) Entendimento que profissionais e organizações possuem em relação às técnicas de análise quantitativa;
(2) Interpretação e ações após o resultado da análise quantitativa;
(3) Importância da sistemática de gerenciamento de riscos como um todo e como ferramenta para a tomada de decisão.

Desta forma, o primeiro ponto é quanto ao entendimento e ao conhecimento que profissionais e organizações possuem em relação às técnicas de análise quantitativa. Percebe-se que a análise quantitativa, de forma positiva, vem ganhando adeptos ao longo do tempo, e que mais profissionais e organizações vêm se interessando pela sua aplicação, porém, o que ocorre é que existem várias técnicas que podem ser aplicadas para a quantificação do risco, e a Técnica de Monte Carlo é somente uma delas, ainda que sua aplicação esteja se tornando “popular”. Entretanto, para muitos o entendimento parece ser que: (a) A Técnica de Monte Carlo é a única técnica de quantificação de riscos; (b) Só se faz quantificação de riscos se for aplicada a Técnica de Monte Carlo. É fato que para cada risco que se deseja quantificar existem técnicas mais ou menos apropriadas, e a escolha da técnica deve ser consciente, contudo não se deve partir do princípio da existência de uma única técnica, onde podemos citar também Árvore de Eventos, Árvore de Falhas, Análise de Sensibilidade, Valor Monetário Esperado, Valor Presente Líquido, entre outras[1].

O segundo ponto importante é quanto à interpretação e ações após o resultado da análise quantitativa. O gerenciamento de risco é também uma ferramenta para subsidiar a tomada de decisão, entretanto, é necessário entender o resultado como uma probabilidade e não uma certeza, e de que ele é fruto do que foi colocado como entrada, assim se os dados de entrada forem informados e trabalhados de qualquer forma, de qualquer forma será o resultado. Assim sendo, o resultado de uma análise quantitativa deve ser interpretado, e caso a situação apresentada não seja favorável, o resultado não deve por isso ser desacreditado, mas sim avaliado e caso o entendimento seja de que os dados de entrada não são confiáveis, eles devem ser retrabalhados ou refinados. Este resultado poderá ser utilizado como subsídio para a tomada de decisão, mas não deve ser encarado como certeza. Desta forma, a questão colocada é quanto as ações que se pretende levar a cabo como resposta ao resultado obtido, pois se nada se pretende fazer com o resultado, nem que seja a decisão consciente de que o risco será aceito, talvez seja melhor não investir esforços para realizar tal análise, entretanto, parece que diversas organizações fazem exatamente isto: fazem ou querem fazer uma análise quantitativa, mas não conseguem interpretar o resultado e tampouco estão dispostos ou não entendem que o resultado demanda ações, mas ainda assim, tais organizações em muitas vezes fazem a questão de divulgar que fazem análise quantitativa.

O terceiro ponto de análise a ser considerado é a importância (1) do gerenciamento de risco como uma sistemática e como subsídio para um processo de tomada de decisão, (2) de outras fases da sistemática, em especial da fase de identificação dos riscos. Assim, é necessário compreender que gerenciar riscos é mais amplo do que utilizar a Técnica de Monte Carlo para, por exemplo, obter a probabilidade em atingir o prazo esperado do projeto, e sim que pela literatura a sistemática é composta basicamente pelas fases de identificação, análise ou avaliação, ações de resposta e ações de monitoramento[1], e onde, além disto, é um processo interativo que ocorre em diversos ciclos ao longo do ciclo de vida do projeto. Desta forma, a busca por um processo de gerenciamento de riscos consistente deve considerar a execução dos processos de forma sistemática e que ao longo do tempo dará confiabilidade e robustez ao processo, mas que do contrário pode fragilizar a disciplina de gerenciamento de risco. A fase de identificação dos riscos, por exemplo, segundo autores clássicos da área, é uma fase importante e fundamental para todo o processo.

Desta forma, acho que estamos iniciando uma ampliação da prática de gerenciamento de riscos, entretanto ainda se faz necessário um conhecimento mais amplo e consolidado sobre o processo geral de gerenciamento de riscos, dando atenção a outras importantes fases do processo, e neste caso em especial de diálogo, sobre as técnicas de quantificação de riscos por parte de profissionais e organizações e a quebra do sinônimo “quantificação de riscos – Técnica de Monte Carlo”, ainda que esta técnica esteja se tornando mais popular.

REFERÊNCIAS
[1] MORANO, Cássia Andréa Ruotolo. Aplicação das Técnicas de Análise de Risco em Projetos de Construção. 2003. 206 f. Dissertação (Mestrado em Engenharia Civil) – Universidade Federal Fluminense – UFF, Niterói, 2003.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Níveis negativos de maturidade em gerenciamento de projetos

Em um dia destes, ouvindo um podcast americano sobre gerenciamento de projetos, o autor abordou o assunto de que “para muitas organizações e PMOs, o ponto chave para avançar em qualquer tipo de maturidade seria ter um bom entendimento e compreensão do ponto inicial de partida, mas que não se deveria assumir que o ponto inicial real está de fato no quadrante um”, e desta forma ele apresentada a idéia de “níveis negativos de maturidade em gerenciamento de projetos”[1]. Tal assunto me chamou a atenção e gostaria de trazê-lo à tona. A proposta do autor é de que além dos cinco tradicionais níveis de maturidade “positivos”, existiriam ainda cinco níveis negativos:
-1: o nível daquele que se recusa a lutar
-2: o nível daquele que se adapta mal ao novo ambiente
-3: o nível do sabotador
-4: o nível daquele que se desvia das normas
-5: o nível do terrorista


Entretanto, em pesquisa realizada para verificar se tal assunto estava sendo tratado na literatura ou já sendo praticado e reportado por alguma organização, o resultado não foi positivo e todas as referências apontavam para os respectivos podcasts.

Desta forma, diante do resultado, algumas questões me vieram à mente:
- Serão estes níveis negativos uma tendência de expansão do atual modelo de maturidade?
- A utilização de uma escala negativa de maturidade seria algo realmente adotado pelas organizações?


Assim sendo, sem a pretensão de ter a resposta definitiva para estas questões, mas à luz do resultado da pesquisa, da visão particular vivenciada sobre a prática de gerenciamento de projetos nas organizações e das freqüentes leituras, entendo que esta será uma proposta de difícil aceitação pelas organizações, que com seus perfis competitivos e em vários casos pouco maduras em termos de autoconhecimento, não irão adotar ou assumir que estão em um nível negativo de maturidade, quando seu concorrente adota somente a escala positiva. Senão por uma efetiva mudança dos modelos de maturidade, acredito que somente organizações altamente comprometidas com seu desenvolvimento interno e seu autoconhecimento poderão utilizar tais escalas negativas, internamente, em busca de seu crescimento. Por outro lado, a carência de referências na literatura sobre o assunto dificulta o entendimento e a implantação prática de tal proposta.

Enfim, esta proposta de níveis negativos de maturidade em gerenciamento de projetos, senão algo inovador ao atual modelo e de aplicação futura, poderia ser uma crítica às organizações que efetivamente com pouca ou nenhuma prática na área de gerenciamento de projetos já se colocam no mesmo patamar de outras com maior prática, entretanto sem condições ainda de passar para o próximo nível.

Os referidos podcasts que abordam o assunto podem ser acessados em http://www.thepmopodcast.com/.

[1] BOT International. The PMO Podcast Points Memo. The PMO Podcast. 5 Podcast. Episódio 171, 172, 173, 174 e 175. Disponível em .