sábado, 1 de dezembro de 2012

O comunicólogo e o gestor: por uma abordagem às questões empresariais baseada em estudos sobre cultura

Fugir do óbvio: essa preocupação me causava insônia na noite do dia em que fui convidado quase publicamente para escrever sobre produção cultural e gerenciamento de projeto. Primeiro por ansiar encontrar uma proposta que fosse ao mesmo tempo interessante ao leitor e que transmitisse credibilidade quanto ao conteúdo exposto. Depois, por tê-la encontrado, imaginava as possibilidades que dela defluíam em um fluxo criativo constante.
A conclusão a que cheguei foi que teria que inverter o sentido do raciocínio pragmático da engenharia e esboçar uma breve análise do que outras ciências relacionadas ao estudo da cultura podem contribuir para a gestão corporativa.
Sendo assim, minha proposta aqui não é escrever sobre a aplicação de técnicas de gestão na produção cultural, ainda que este também seja um campo que só tenha começado seu desenvolvimento recentemente, mas iniciar um processo de tentar entender e explorar a forma como os estudos de cultura podem suportar a organização empresarial.
Observo também (e isso pode talvez frustar a dona deste blog) que procurei me afastar da sisudez do formato de artigo acadêmico para privilegiar um formato mais fluido que, acredito, tornasse o texto mais agradável ao leitor. Busquei me aproximar o quanto possível de um ensaio mas, em virtude dessa introdução próxima da crônica, entendo ter me mantido num meio ponto, chegando num "quase ensaio" talvez?
Obviamente, pela extensão e potencial do assunto, não tenho pretensões de esgotá-lo, mas apenas fazer um rápido exercício do que seria uma abordagem a algumas questões empresarias considerando aspectos inerentes da cultura.
Neste ponto, recrudesce a necessidade de entender que o corpo de uma empresa é formador de um grupo social que, em avaliação minuciosa, é delineado e específico. Quando juntos, estes indivíduos compartilham de um mesmo repertório - constituído por comportamentos, linguagens, códigos – que produzirá um sentido próprio quando e somente enquanto inseridos dentro do contexto corporativo.
A analogia com a produção de cultura é construída a partir da definição de cultura apresentada pelo  antropólogo norte-americano Leslie White, na qual esta se constituiria e se perpetuaria a partir do exercício das faculdades de simbolização. De certa forma, esta relação já está assimilada e fica evidente quando analisamos expressões comuns no meio empresarial como “reconhecimento simbólico” e “cultura de gestão”.
Mas me parece intrigante o porquê de não se pensar em expressões como “gestão de cultura (organizacional)”. Alguém pode alegar que esta estaria contida em outras áreas de atuação administrativa como a gestão de mudança ou a gestão de clima organizacional. Mas, mais uma vez me parece o retorno ao pragmatismo óbvio, ou seja, a tentativa de apropriação da subjetividade sociológica por parte da administração do que propriamente um esforço de avaliar a administração da empresa sob o prisma sócio-antropológico.
A própria prática de gerenciar – seja um projeto, a produção industrial, o orçamento, um risco ou uma equipe – é igualmente farta em simbolização. O papel do gerente é particularmente relevante neste processo. A visibilidade proporcionada pelo cargo lhe confere um atributo geralmente ignorado ou subavaliado: o da geração de significados. As decisões tomadas, os recursos visuais adotados nas apresentações, as escolhas lexicais dos relatórios, os comportamentos valorizados e os penalizados são situações corriqueiras que criam uma memória coletiva nos indivíduos sob influência daquele na condição de líder. O sucesso da perpetuação desta memória servirá como base para a consolidação da cultura organizacional.
É claro que a adoção e repetição deste simbolismo só ocorrerão se houver disposição, por parte de uma massa crítica de pessoas, de praticá-los e torná-los uma espécie de “contrato social organizacional”. Neste caso,  a aceitação deste contrato pode ser colocada em prática pela empresa por meio de mecanismos de bonificação ou penalidade. Mas, como fazer para que a aceitação seja uma escolha voluntária e não uma imposição?
Acredito serem úteis, para esta questão, as ideias do sociólogo francês Marcel Mauss, para quem a troca entre membros de um grupo é um mecanismo de coesão social. Envolver a força de trabalho com os valores da empresa é mais do que simplesmente lhe informar quais são os atributos e hábitos desejados, é imbui-la do sentimento de participação num processo complexo de trocas, onde, mesmo que as aspirações da massa não sejam acatadas, pelo menos que as mensagens ideias, valores e conhecimentos emitidos por ela sejam percebidos como recebidos, interpretados e respondidos.  
A partir de então, é esperado que este conjunto de símbolos se propaguem e se repitam, permeando toda a estrutura hierárquica abaixo.
Da mesma forma, seria possível aplicar este raciocínio em diversas outras áreas da gestão como as comunicações internas, o gerenciamento de riscos e, certamente, a gestão de pessoas (só para citar 3 áreas onde vejo mais nitidamente potencial para aplicação deste pensamento).
E, sendo assim, caberiam, ao meu ver, reflexões e esforços das empresas em uma tentativa de compreender seu contexto interno a partir desta perspectiva.

REFERÊNCIAS
1.  LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um conceito antropológico, 21º edição. Zahar: Rio de Janeiro, 2007.

2. MAUSS, Marcel. Ensaio sobre a Dádiva. Lisboa, Edições 70, 1988 (Original: 1950).

domingo, 25 de novembro de 2012

A Técnica "Brainstorming"


Acho que quase todo mundo já ouviu falar da técnica chamada “brainstorming”. Certo? Acho também que alguns já ouviram sobre ela como uma das técnicas mais populares utilizadas para identificação de riscos de projetos. Certo também? Mas talvez, o que muitos desconheçam seja a sua origem e as suas características originais de aplicação, já que ao longo do tempo as pessoas foram fazendo adaptações durante a sua aplicação. Em 2006, eu escrevi um trabalho de pesquisa acadêmica1 sobre a utilização desta técnica no gerenciamento de riscos, assim, vou pegar emprestado a descrição de lá e compartilhar aqui.

A técnica “brainstorming” é uma das técnicas de geração de ideias em grupo2 que não foi especificamente criada para o gerenciamento de riscos, mas sim para o gerenciamento de negócios. A técnica foi desenvolvida por Osborn3, por volta de 1942, como um método para solução de problemas, argumentando que a efetividade da técnica se origina de dois pontos essenciais:

1º) o pensamento em grupo é mais produtivo que o pensamento individual; 
2º) a anulação das críticas melhora a geração de ideias.

Além disto, seriam quatro as regras básicas para a condução da técnica4:
  1. As críticas devem ser banidas – a avaliação das ideias deve ser guardada para momentos posteriores;
  2. A geração livre de ideias deve ser encorajada;
  3. Foco na quantidade – quanto maior o número de ideias, maiores as chances de se ter ideias válidas; 
  4. Combinação e aperfeiçoamento de ideias geradas pelo grupo.
Desta forma, a técnica divide-se em duas etapas de aplicação:

1ª) Fase criativa - onde são apresentadas o maior número possível de ideias pelos participantes;
2ª) Fase crítica - onde são filtradas as melhores ideias, permanecendo somente as aprovadas pelo grupo, e também onde cada participante defende a sua ideia com o objetivo de convencer o grupo.

Por fim, pode-se resumir a técnica em algumas características:

- Fases:
 Duas - 1) apresentação das ideias; 2) Filtro das melhores ideias.

- Definição do Problema e Solução Aceitável:
 Encontro prévio para definição do problema; Sessão inicial para redefinição do problema.4

- Tamanho do Grupo:
 12 pessoas; Líder, auxiliar, 5 membros regulares, 5 membros convidados. 4

- Características dos Membros do Grupo:
 Grupo heterogêneo: diferentes perspectivas e personalidades. 4

- Ambiente:
 Normas e expectativas da organização não influenciam; o líder não pode dominar a sessão; o grupo deve perceber que o processo contribui para os objetivos; ambiente livre de interrupções; arrumação deve evitar formação de pequenos grupos.

- Seleção das Melhores Idéias:
 Posterior e independente da apresentação das ideias. 4

- Efetividade:
 Critério prévio 4; Número de ideias geradas 5.



REFERÊNCIAS:

1 MARTINS, Claudia Garrido. Aplicação das Técnicas de Identificação de Risco em Projetos de E & P. 2006, 93f. Monografia (Pós-Graduação - MBA em Engenharia Econômica e Financeira) - Universidade Federal Fluminense – UFF, Niterói, 2006.

2 Outras técnicas: Técnica Delphi, Criação de Cenários, Brainwriting, Técnica de Grupo Nominal.


4 CHAPMAN, Robert J. The Effectiveness of Working Group Risk Identification and Assessment Techniques. International Journal of Project Management, v. 16, n. 6, p. 333- 343, 1998.

5 DOWLING, Karen L. ST. LOUIS, Robert D. Asynchronous implementation of the nominal group technique: is it effective?. Decision Support Systems, s.l., v. 29, p. 229-248, 2000.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Errar no básico do gerenciamento de projeto: frustração ou oportunidade?


Este texto já deveria ter sido escrito há mais tempo, mas a motivação e o dia a dia corrido foram deixando esta tarefa em segundo plano. Entretanto, alguns acontecimentos recentes me fizeram refletir se realmente este texto não deveria ser escrito, mesmo achando que o assunto é batido.

Estamos em 2012 e o assunto ou a disciplina de Gerenciamento de Projetos se mantém em destaque. Menos desconhecida hoje do que há alguns anos, o que é natural, dado o número de Associações Profissionais existentes, membros associados, "padrões" emitidos e profissionais certificados. Entretanto, mesmo nos dias de hoje ainda se encontram projetos (e não são poucos) que não conseguem sequer implementar o básico da disciplina do gerenciamento de projetos, em pequenos, grandes, e porque não, mega projetos, o que para alguns profissionais e empresas pode ser uma frustração ou oportunidade.

Assim sendo, gostaria de explorar aqui o que considero o básico de um gerenciamento de projeto: um mínimo de planejamento e controle!

Enfim, tenho ficado muito impressionada como não se consegue planejar utilizando técnicas/ferramentas simples, tais como uma lista de entregáveis (estrutura analítica de projetos - EAP ou Work Breakdown Structure - WBS), um cronograma, uma programação de trabalho, e uma planilha de custo! Simplesmente, acho que se esquece que um software caro instalado no computador não vai fazer este trabalho sozinho, pois é preciso pensar. Pensar no planejamento de um projeto requer um pouco de competência e conhecimento, não basta ter um técnico "fera" naquela ferramenta cara instalada. Tenho um colega de trabalho, engenheiro experiente de campo, "das antigas", que já atuou em obras de navio, barca e plataformas de petróleo e que de vez em quando se exalta com esta falta de capacidade de planejamento das empresas, comentando que em sua época de chefia de oficina de construção de navios trabalhava com papéis, montados na parede, e canetas coloridas, por onde ele podia visualizar o planejado e o realizado, e hoje, com os tais softwares "parrudos" não se consegue ter a visão da obra.

Assim, não parece complicado listar o que se deseja que seja feito, quando e em que sequência, e a que custo. Mas não estamos conseguindo. Os softwares para controle de cronograma parecem fazer com que a simplicidade da tarefa se perca, e assim, nos perdemos em cronogramas de oito mil linhas, relacionamentos, folgas e restrições. Infelizmente, não tem sido diferente com a cara que está fazendo a reforma de uma casa, mas que também não consegue planejar a sequência das tarefas para a sua equipe, e assim, o pintor acha que pode envernizar o rodapé antes que toda a parte que gera pó tenha sido concluída.

Bem, e aí, o que escrever sobre o controle do projeto? Vou utilizar aquela velha e máxima que diz que não se pode controlar aquilo que não se pode planejar (ou que não se planeja). Nenhuma surpresa em saber então que, se não se consegue planejar, se tem controles ruins também. A conclusão é que não sabemos o que ou quanto foi realizado, e o que ou quanto falta para ser realizado. Básico, não?

Essa é a parte frustrante da questão, onde empresas e profissionais não conseguem fazer o básico do gerenciamento de um projeto. Onde está então a oportunidade? A oportunidade está para aqueles profissionais ou empresas que sabem na prática como fazê-lo e de ganharem mercado com isso, além de clientes mais satisfeitos, não importa se você ou sua empresa executa pequenos ou grandes projetos. Fica a oportunidade também para capacitação dos profissionais, mas sem a ideia de que um currículo exemplar (ou que parece ser) ou uma certificação sejam a garantia de que as coisas irão funcionar. Tenho experimentado que na prática as coisas não são bem assim. Mas o mercado tem a carência de bons profissionais de planejamento.

Por fim, sou entusiasta das boas práticas de gerenciamento de projeto, de todos aqueles processos, técnicas e ferramentas, mas depois de todos estes anos, acho que tenho ficado meio anestesiada (ou frustada?) quando vejo que a grande empresa contratada, ou o pequeno empreiteiro que está fazendo o projeto na minha casa, não conseguem trabalhar com o básico, o essencial de planejar e controlar.